Rodolfo Soriano-Núñez Lunes, 14 de Septiembre del 2026, 00:00
A promotora Catharina Verboonen decidiu arquivar uma investigação de vários anos sobre as práticas sectárias e abusivas nos Arautos, uma ordem católica do Brasil.
Além de poderosos aliados no Brasil, os Arautos, fundados em 1999, são a vertente de catolicismo intransigente preferida do presidente colombiano Abelardo de la Espriella.
Por Rodolfo Soriano-Núñez
Este é um relato sobre como as autoridades de um país da América Latina se reconhecem incapazes de oferecer justiça aos seus cidadãos e a qualquer outra vítima de um crime em seu território. Essa não é a opinião de quem escreve estas linhas.
Essa é a resolução de uma funcionária do governo de São Paulo, Brasil, que não exonera nem descarta os crimes perpetrados contra jovens aspirantes a ingressar nos Arautos do Evangelho, uma organização religiosa similar a uma ordem, fundada no Brasil em 1999.
A funcionária, a promotora de Justiça de São Paulo, Catharina Verboonen, explica isso ao longo das 17 páginas em formato ofício de um documento oficial. Embora qualifique em repetidas ocasiões as práticas dos Arautos como reprováveis e reconheça várias violações aos direitos humanos, conclui que a persecução penal é impossível.
É um relato que termina, ao menos até agora, em São Paulo, uma das maiores metrópoles do Brasil e da América Latina, mas com raízes e ramificações em outros países da América Latina, no Canadá e em todo o mundo católico, dado que os Arautos conseguiram desenvolver, graças à sua estreita relação com a Tradição, Família e Propriedade, uma organização cívico-política fundada em 1960 no Brasil por Plinio Corrêa de Oliveira.
Neste ponto, é impossível aprofundar nas origens dos Arautos e em como coroam, em mais de um sentido, o projeto político e religioso de Corrêa de Oliveira tanto no Brasil quanto na América Latina em geral.
Os vestígios da influência em constante expansão da Tradição, Família e Propriedade em diferentes países são evidentes para quem quiser ver: no Brasil, onde apoiam a família Bolsonaro; no mundo anglófono e germanófono, onde existem organizações irmãs que levam alguma variação de sua denominação original em português como Tradição, Família e Propriedade ou simplesmente “TFP”, como é conhecida abreviadamente em várias línguas ocidentais.
Na América Latina, a expressão mais recente e massiva da influência da TFP ocorreu na sexta-feira, 28 de agosto, na Praça de Bolívar, um lugar emblemático de Bogotá, Colômbia, onde Abelardo de la Espriella, o recém-empossado presidente, liderou uma multitudinária vigília pública organizada no âmbito da resposta do governo colombiano aos terremotos de 10 de agosto.

Entre as numerosas celebridades, políticos e empresários presentes, foi possível ver, trajados com suas túnicas de “estilo medieval” na altura do joelho e desenhadas para exibir botas de montaria — algo alheio a um hábito de frei —, pelo menos seis sacerdotes dos Cavaleiros da Virgem, um ramo da família dos Arautos, que ajudaram De la Espriella a coroar uma imagem de Nossa Senhora de Fátima.
Ainda que o de hoje seja um relato sobre como as autoridades de São Paulo, Brasil — com cerca de 45 milhões de habitantes, quase o mesmo que têm por si sós a Argentina ou o Canadá —, reconhecem práticas reprováveis e, no entanto, concluem ser impossível proceder penalmente, o assunto tem repercussões em todo o mundo católico.
Não apenas porque São Paulo é o motor econômico do Brasil e seu estado mais populoso, mas porque, antes de seu falecimento em abril de 2025, o papa Francisco havia lançado, a pedido de prelados brasileiros, uma investigação, uma chamada Visita Apostólica, aos Arautos.
Edições anteriores desta série, linkadas antes e depois deste parágrafo, explicaram o que implica uma Visita Apostólica como mecanismo utilizado pela Igreja Católica para intervir em uma diocese ou ordem e investigar o que ali sucede. Uma tradução automática para o português do primeiro texto da série está disponível neste link e a referente ao segundo texto pode ser consultada neste link.
Basta comparar o nada que emerge do Brasil e da América Latina em geral com as notícias da França, onde mais de 200 sacerdotes e religiosos católicos, mulheres e homens de 37 dioceses ou ordens distintas, assinaram uma carta aberta pedindo ao papa Leão XIV que aborde verdadeiramente as causas do abuso sexual em seu país (conteúdo em espanhol).
O caso dos Arautos ganha maior relevância já que, apesar das múltiplas falhas na condução da crise de abusos sexuais por parte da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) — similar ao resto da América Latina, por não estar disposta a reconhecer a verdadeira escala da crise em suas dioceses ou ordens, como já ocorreu nos Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha e Espanha —, é necessário destacar que Francisco iniciou a investigação em resposta às solicitações de prelados brasileiros.
Os próprios Arautos culpam bispos brasileiros pela Visita Apostólica. Fiéis a algumas das estratégias mais comuns na Igreja Católica para influenciar a Cúria Romana e, em última instância, o pontífice em exercício, publicaram um livro e incontáveis artigos em suas revistas e sites, não apenas em português, mas em tantos idiomas ocidentais quanto lhes foi possível, para se retratarem como vítimas de abusivos prelados brasileiros, incapazes de reconhecer o valor de seu trabalho.

Desde a morte do Papa Francisco, a intensíssima operação nas redes sociais dos Arautos tem tentado pressionar Leão XIV a pôr fim à Visita Apostólica e, em última análise, deixá-los voltar às suas práticas, que incluem a matrícula de candidatos menores de idade à vida religiosa em internatos, onde os estudantes estão sob o controle absoluto das ordens religiosas que os dirigem.
Em alguns casos, esses internatos se apresentam inclusive como “seminários menores”; mas a verdade é que, já desde os tempos de Bento XVI, Roma fez todo o possível para desestimular esse tipo de “seminário menor”, por ter sido identificado como lugar propenso a diferentes tipos de práticas abusivas.
É aí que ocorreram muitas das práticas mais prejudiciais reconhecidas no memorando de Verboonen, e esses “seminários menores” são alvos frequentes de acusações. São também uma trincheira onde muitas das organizações mais sectárias decidem desafiar as resoluções de Roma.
Na seção “Post Data” do texto linkado após este parágrafo — ou aqui em uma tradução automática do Google —, há um exemplo de como Isidro Puente Ochoa, um sacerdote da arquidiocese de Tijuana, México, autorizado por um antigo titular dessa diocese a dirigir um “seminário menor”, esteve disposto a incorrer em cisma com Roma — com o apoio de organizações tradicionalistas dos Estados Unidos — antes de aceitar as novas normas que proibiam a matrícula de candidatos menores de idade à vida religiosa.
É notável que, em sua maior parte, a reação dos Arautos contra a Visita Apostólica e a intervenção não ocorra em português, mas em italiano e, até certo ponto, em inglês.
Para ver como os Arautos desafiam as restrições impostas por Roma às suas operações, deve-se pesquisar na rede pelo critério “Araldi del Vangelo” (italiano para Arautos do Evangelho) e ler o que publicam regularmente em duas plataformas principais. A primeira opera a partir do endereço www.araldimissioni.it como seu portal oficial em italiano, além de publicar ali um blog.
Embora se apresente como um site devocional, é usado para desafiar a intervenção. Em seções como “Araldi del Vangelo Commissariati” (e comunicados de imprensa relacionados com sua campanha global), abrigam textos que criticam a Visita Apostólica de 2017 e o Commissariato Pontificio de 2019 ordenado por Francisco.
Sua mensagem enquadra a intervenção como uma perseguição de hierarcas vaticanos e brasileiros abusivos, alegando falta de devido processo, irregularidades processuais e um ataque ideológico ao tradicionalismo, uma complexa subcultura do catolicismo, próxima em alguns aspectos a organizações cismáticas como a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, que afirmam, apesar dessas afinidades, ser “verdadeiramente católicas”.
A segunda plataforma é a Rivista Araldi del Vangelo (www.rivistacattolica.it), ou Revista dos Arautos do Evangelho. É a edição italiana de sua publicação mensal oficial em português. Junto a textos espirituais e biográficos sobre João Scognamiglio Clá Dias, fundador dos Arautos, e Plinio Corrêa de Oliveira, a revista questiona, critica e ataca a intervenção vaticana em curso ao exaltar Clá Dias como bode expiatório (vittima espiatoria) das elites romanas.
Retrata o regime da ordem como um baluarte da ortodoxia assediado por forças modernizadoras em Roma. Adicionalmente, entre os veículos católicos conservadores italianos que amplificam a reação contra Francisco encontra-se La Nuova Bussola Quotidiana, que publica regularmente artigos enquadrando a investigação vaticana como uma onda arbitrária contra as ordens tradicionalistas.
Encontra-se-á uma narrativa similar ao revisar sua vasta operação nas redes sociais, onde o uso de seus uniformes parece projetar o tipo de convicção de estilo militar que se esperaria de um oficial militar de alta patente com experiência.
Dificilmente são pioneiros nisso. Basta recordar a defesa feita pela Legião de Cristo de seu “carisma” e de seu fundador como vítima dos “vermelhos” ou dos “comunistas” para ver um remake, em italiano ou português, de uma velha telenovela mexicana.
O papel das autoridades
Mais revelador é, contudo, que a notícia sobre o arquivamento da investigação oficial aos Arautos no Brasil oferece uma oportunidade para observar quão relevantes são as autoridades civis para compreender a impunidade como a norma na América Latina quando se trata de abusos sexuais, por parte de clérigos ou de outra índole.
Isso não exime Roma de sua própria responsabilidade quanto a aplicar uma política global efetiva e com dentes para enfrentar a crise, mas está claro que a CNBB poderia ver o despacho de arquivamento da promotora paulista Catharina Verboonen como algo similar a uma exoneração, ainda que não o seja.
E quando se observa toda a América Latina, emergem sinais similares. Enquanto se escrevem estas linhas na Cidade do México, notícias vindas de Santiago do Chile dão conta de mais um caso em que as vítimas de abusos sexuais vêm suas demandas rejeitadas por prescrição da ação penal, tal como aponta este texto da rede chilena de sobreviventes (conteúdo em espanhol).
Nesse sentido, os bispos da região parecem estar em uma posição bastante confortável, com pouca ou nenhuma pressão para aplicar realmente suas próprias normas, enquanto seguem o roteiro de Roma sobre prevenção, ao organizar breves seminários para falar do tema, mas sem dar sinais de estarem dispostos a passar das palavras aos atos. O fato de que a atividade mais recente da Tutela Minorum na América Latina tenha ocorrido em Brasília, capital do Brasil (veja a mensagem do Facebook após este parágrafo) — o país onde a justiça simplesmente não pode ocorrer —, é mais uma gota no balde.
Uma ironia mais incisiva e evidente surge ao contrastar as respostas oficiais dos episcopados europeu e latino-americano diante da questão sobre o que fazer com os mosaicos elaborados por Marko Rupnik — o predador e antigo jesuíta que ainda é sacerdote católico — nas basílicas de Nossa Senhora de Lourdes, na França, e Nossa Senhora da Aparecida, no Brasil.
Quaisquer que sejam as deficiências que se possam identificar na resposta dos bispos franceses à crise de abusos sexuais em seu país — e há muitas —, é impossível ignorar o fato de que estão dispostos a retirar da vista pública os mosaicos de Rupnik em Lourdes. Enquanto isso, a 8.640 quilômetros de distância, os bispos brasileiros estão dispostos a buscar desculpas para manter os mosaicos de Rupnik em plena exibição em Aparecida, enquanto outras conferências episcopais, como a da Espanha, não demonstram disposição para seguir o exemplo de seus irmãos franceses.
É como se certos setores da Igreja Católica apostassem ainda na amnésia coletiva, como se, de alguma maneira ou de outra, no futuro as pessoas fossem esquecer os abusos de Rupnik. Para piorar as coisas, enquanto o segundo julgamento canônico do antigo jesuíta permanece em uma espécie de limbo, Roma parece incapaz de decidir entre o reconhecimento francês de que Rupnik cometeu atrocidades ou a cínica atitude brasileira desfraldada em Aparecida, que opta pela dissonância cognitiva gerada por este caso.
Mais ainda, este relato se ajusta ao padrão que esta série documentou em várias edições sobre como na América Latina a Igreja Católica, com o apoio de outras elites, se alinha ao lema da política em muitos países da região: “aqui não acontece nada”.
“Aqui não acontece nada” porque, como prova este caso, mesmo quando Verboonen reconhece abusos, sexuais ou de outra índole, nas instalações dos Arautos, também se declara incapaz de investigar e processar as múltiplas instâncias de tais práticas.
Como se não bastasse, é um relato similar em muitos aspectos aos que emergem do Opus Dei na Espanha, da Legião de Cristo no México, do Instituto do Verbo Encarnado na Argentina e, entre muitos outros exemplos, do Sodalício de Vida Cristã no Peru.
É um caso paradigmático que explica por que o Vaticano criou, durante o último século, o tipo de condições de “tempestade perfeita” para a crise de abusos sexuais clericais ao legitimar e incentivar, especialmente durante o longo pontificado de João Paulo II, a marca de catolicismo apocalíptico e do fim dos tempos que facilita o abuso, sexual ou de outro tipo, em grupos e organizações de corte sectário como os Arautos e muitas outras consideradas ao longo de várias edições desta série.
Mas é também um caso paradigmático para compreender por que as repúblicas latino-americanas têm sido o meio fértil onde o abuso tem amplas oportunidades de ocorrer; por que policiais, promotores e juízes podem simplesmente descartar multidões de casos e por que, quando lhes é possível, fazem todo o possível para desestimular qualquer prestação de contas sobre a escala e a prevalência do abuso sexual.
Não que o abuso seja exclusivo de grupos similares a ordens como os Arautos, o Sodalício ou o Caminho Neocatecumenal. Encontram-se abusos em grande escala em ordens aparentemente liberais — para os padrões católicos —, como os jesuítas, tal como demonstra o escândalo em curso na Bolívia. O que ocorre é que o abuso nos Arautos, no Opus Dei ou no Sodalício se mistura também com uma visão de mundo de tipo sectário que não apenas rejeita o “mundo” como, em teoria, todo cristão é chamado a fazer, mas que também leva seus membros a rejeitarem a liderança de seus próprios hierarcas por considerá-la “contaminada” ou “próxima do mundo”.
A anatomia da impunidade
O documento oficial com a resolução de arquivamento emitida pela promotoria paulista está disponível após este parágrafo em formato PDF.
A Defensoria Pública reconhece ter entrevistado mais de quarenta antigos membros ou aspirantes à organização. Ao fazê-lo, consolida uma imagem dos Arautos que levou as autoridades brasileiras a qualificá-los como uma “instituição total”.
Isso não é um elogio. Nos anos sessenta, o sociólogo de origem canadense Erving Goffman desenvolveu a noção de “instituição total” como aquela onde a despersonalização, o isolamento forçado e a hierarquia estrita não eram efeitos secundários acidentais, mas características principais de como se exerce o controle sobre grupos humanos relativamente grandes. Goffman e seus discípulos desenvolveram uma série de estudos sobre os efeitos que essas “instituições totais” tinham nas pessoas que participavam delas por sua vontade ou forçadas por diversas razões.
No caso dos Arautos, o caráter “total” da instituição é o que facilita as recorrentes acusações de abuso não limitadas ao âmbito sexual. Estas incluíram a destruição dos laços familiares, o isolamento da sociedade, a despersonalização, a obediência incondicional, a disciplina militar, os castigos físicos, o abuso psicológico, o trabalho infantil, a discriminação racial, a discriminação contra pessoas LGBT, a negligência com doenças e acusações de abuso sexual. A Defensoria concluiu que essas práticas representavam um grave padrão de violações de direitos que afetava crianças e adolescentes.
Este é um padrão, diga-se de passagem, muito similar ao que hoje se sabe sobre as práticas de recrutamento e formação da Legião de Cristo no México, do Opus Dei — seja na Espanha, Argentina ou no Reino Unido —, do Instituto do Verbo Encarnado na Argentina e do já mencionado Sodalício no Peru, onde as práticas chegaram ao extremo de obrigar os aspirantes a ingerirem combinações de alimentos que alguns considerariam repugnantes, bem como a realizarem publicamente atos simulados de índole sexual com cadeiras ou outros objetos inanimados.
Verboonen aceita as denúncias e as provas apresentadas como suficientemente graves para justificar uma investigação penal. Entrevistaram-se algumas vítimas e recolheram-se provas adicionais.
Verboonen explica como o advogado representante de uma das supostas vítimas tenta então ampliar a investigação. As solicitações revelam-se elucidativas: o advogado pede às autoridades que investiguem a estrutura legal dos Arautos, suas corporações afiliadas, escolas, finanças, administradores, cadeias de comando, métodos de disciplina, estruturas operacionais e conexões entre múltiplas organizações. O argumento central é que as acusações de abuso não podem ser compreendidas sem entender a instituição que as produziu.
Lamentavelmente, Verboonen rejeita os pedidos porque o direito penal brasileiro se ocupa de perpetradores identificáveis, não de análises amplas de estruturas institucionais. Volta repetidamente à ideia de que a legislação penal no Brasil pune pessoas naturais (físicas), não organizações, religiosas ou de outro tipo.
Visto que a investigação é de natureza penal, a promotora vê escasso valor em explorar a arquitetura organizacional dos Arautos. A indagação reduz-se, portanto, de uma pergunta sobre uma instituição a uma pergunta sobre se indivíduos específicos cometeram crimes específicos.
O que se segue tem uma estrutura quase repetitiva. A promotora reconhece que as provas apontam para irregularidades graves. Verboonen afirma explicitamente que a investigação descobriu diversas violações aos direitos humanos. Refere-se reiteradamente às práticas dos Arautos como reprováveis. Em nenhum momento retrata a instituição como inocente. No entanto, cada categoria de abuso esbarra em barreiras que terminam por tornar impossível a persecução penal.
O sistema disciplinar descrito por antigos membros é um exemplo. As testemunhas descrevem “capítulos”, palavra que nos mundos de língua portuguesa e espanhola evoca práticas e culturas medievais e coloniais nas quais os membros eram submetidos a humilhações coletivas, acusações e escrutínio. Mais uma vez, para quem tenha lido sobre o que ocorria no Sodalício no Peru ou na Pia União Sacerdotal em Santiago do Chile — a organização do clero diocesano controlada por Fernando Karadima —, o relato é demasiado similar para ser visto como “mera coincidência”.
Estas e outras práticas são chave para entender como os mandos superiores “quebravam” os aspirantes, para avaliar até onde estavam dispostos a obedecer. Algo similar deve ser dito sobre as “peculiares” vestimentas dos Arautos.
Como demonstra a imagem de um de seus atos públicos perto da Basílica de Nossa Senhora da Aparecida, são o próprio “kitsch católico”: hábito marrom como o de um frei franciscano, mas que não chega aos tornozelos para ostentar suas botas militares, com uma grande cruz que cobre a maior parte do corpo, tal como algumas ilustrações tipo quadrinhos representam os soldados participantes das Cruzadas.

Ao observá-los, é impossível não pensar neles como uma tentativa de se tornarem a própria encarnação do que o Sodalício peruano declarava como a meta última para seus membros: metade monges, metade soldados.
Esse é, por sinal, o título do revelador livro de Pedro Salinas e Paola Ugaz sobre o Sodalício: Mitad monjes, mitad soldados. Buscar tais indivíduos, uma espécie de quimera católica, tem sido um tema recorrente nas ordens católicas desde as chamadas ordens militares que participaram das Cruzadas para reverter a Terra Santa a território cristão; mas como prova o caso dos Cavaleiros Templários, eles terminam por ser um problema para a Igreja que dizem proteger.
Como costuma ocorrer, as organizações de corte militar são tão autorreferenciais que seus membros se mostram cada vez menos dispostos a receber ordens inclusive do próprio papa. Novamente, as similitudes com o Sodalício e o modo como, para proteger essa organização, seus membros estiveram dispostos a atacar o Papa Francisco — como se pode ver no texto linkado após este parágrafo ou aqui em uma tradução automática do Google para o português —, não são uma coincidência. As atitudes no Sodalício e nos Arautos ao se apresentarem como vítimas de Francisco são gotas de água extraídas do mesmo poço.
Verboonen vai mais além ao descrever castigos que incluíam privação de alimentos, marchas forçadas, transporte de cargas pesadas, desconforto físico prolongado e humilhações públicas. A promotora não nega essas práticas. De fato, afirma explicitamente que os métodos disciplinares que provocam sofrimento físico ou psicológico não são permitidos no Brasil.
Contudo, conclui que a ação penal não pode prosperar porque as pessoas responsáveis não podem ser identificadas com a certeza requerida nos processos penais. As práticas parecem ter sido generalizadas. Desafortunadamente, em sua opinião, sua própria difusão torna mais difícil, em vez de mais simples, processá-las.
A mesma lógica se aplica à discriminação racial. A promotora escreve que não há dúvida de que membros de pele mais escura eram designados de maneira desproporcional a tarefas de limpeza e cozinha, e impedidos de acessar a ordenação sacerdotal. No entanto, conclui que a persecução penal por racismo não pode proceder porque a responsabilidade não pode ser vinculada a indivíduos identificáveis. O padrão discriminatório parece ser institucional, mas a lei exige atores identificáveis.
O assunto da discriminação racial é ainda mais sensível dado que por estes dias um eixo de conflito entre a Argentina e o Brasil, que recorda as disputas tarifárias e retóricas entre os Estados Unidos e o Canadá, tem a ver com a prisão de turistas argentinos acusados de insultar brasileiros não brancos durante suas visitas ao Brasil.
Uma análise similar aplica-se à discriminação contra pessoas LGBT. As testemunhas descrevem ambientes nos quais os adolescentes percebidos como homossexuais eram confrontados coletivamente, denunciados ou pressionados. A promotora caracteriza essas práticas como muito reprováveis. Contudo, mais uma vez, a conduta é descrita como generalizada, coletiva e difusa em toda a instituição. Dado que não se pode isolar perpetradores específicos, o processamento judicial torna-se impossível.

As acusações de abuso sexual produzem talvez a seção mais impactante do documento. Aqui a promotora aborda as denúncias referidas aos chamados “ósculos” ou beijos que supostamente João Scognamiglio Clá Dias, fundador da organização, dava na boca de jovens selecionadas.
Verboonen menciona igualmente uma denúncia referente a um menino na década de 1990 e outra acusação discutida em um documentário da HBO exibido recentemente no Brasil. No entanto, o fato central que domina esta seção é que João Scognamiglio Clá Dias morreu. Dado que a responsabilidade penal se extingue com a morte do imputado, praticamente toda análise em torno de sua pessoa conclui nesse ponto. Outras acusações tropeçam em problemas de prescrição ou resoluções prévias de arquivamento. Deste modo, mesmo ali onde se possam ter cometido condutas delituosas, a via processual em direção à prestação de contas já não existe.
A discussão sobre a exploração trabalhista segue um padrão similar, quase indistinguível dos reportados no Opus Dei, Regnum Christi — o ramo “laico” da Legião de Cristo — e no Sodalício, entre muitas outras organizações católicas.
Outra característica chave é que os Arautos, tanto quanto o Opus Dei e muitas outras organizações católicas similares a uma ordem, recrutaram candidatos menores de idade, por serem percebidos pelos líderes como mais maleáveis e mais dispostos a se integrarem “voluntariamente” no que Goffman chama de “instituição total”.
Esse é um dos temas nos quais se focou a Visita Apostólica iniciada pelo Vaticano, e assim é também como cidadãos canadenses terminaram fazendo parte da tragédia global que representam os abusos, sexuais ou de outra índole, nos Arautos. Mais sobre isso em uma próxima edição.
Mais uma vez, Verboonen revisa as denúncias sobre trabalho não remunerado, campanhas de arrecadação de fundos, coletas humilhantes e coletas internacionais de doações. Alguns antigos membros reportaram anos de trabalho sem compensação alguma. No entanto, essas reclamações são remetidas à via trabalhista, bloqueadas pela prescrição ou frustradas pela impossibilidade de identificar os responsáveis.

Ao longo do documento oficial de Verboonen emerge uma curiosa inversão: quanto mais institucional parece uma prática, mais difícil é processá-la judicialmente. Se uma testemunha declara que todo mundo incorria em uma prática, que a prática fazia parte da cultura, que se ensinava como algo normal e se administrava de forma coletiva, a promotora trata repetidamente esse fato mesmo como um obstáculo legal.
A conduta pode ter sido omnipresente; contudo, devido a essa mesma omnipresença, a responsabilidade individual é mais difícil de estabelecer. O que sociologicamente aparece como evidência de um sistema institucional, juridicamente apresenta-se como um problema probatório.
O documento chega, portanto, a uma conclusão de tom extraordinário. A promotora não diz que as acusações sejam inventadas. Não diz que as vítimas faltem com a verdade. Não diz que os Arautos tenham agido adequadamente.
Afirma explicitamente que durante a investigação se identificaram diversas violações aos direitos humanos. Caracteriza de forma explícita as práticas da instituição como reprováveis. No entanto, nas páginas finais sustenta que a ação penal é inviável, que o sustento probatório é demasiado fraco para sustentar um processo criminal e que não encontra medidas de investigação adicionais capazes de alterar essa realidade. O caso, em consequência, é arquivado.
Ocorreu o suficiente como para qualificar as práticas da instituição de reprováveis e identificar violações graves aos direitos, mas não se pode fazer o necessário para transformar esses achados em responsabilidade penal.
Mais uma vez, para quem tenha lido sobre as denúncias de abuso, sexual ou de outro tipo, no Opus Dei, na Legião de Cristo, no Instituto do Verbo Encarnado, no Sodalício de Vida Cristã e em muitas outras organizações similares a ordens católicas de recente criação, a canção pode ser cantada em outro idioma, mas a melodia é a mesma.
Isso é o que outorga à resolução de arquivamento seu caráter inusitado e profundamente insatisfatório. Não é uma declaração de inocência. É uma explicação detalhada de por que os abusos reconhecidos não podem se converter na matéria-prima do que no Canadá ou nos Estados Unidos seria um caso emblemático que derivaria em condenações e, em última instância, na validação da decisão do papa Francisco de ordenar, em 23 de junho de 2017, a Visita Apostólica, reforçada por sua decisão de 28 de setembro de 2019 de nomear o cardeal Raymundo Damasceno Assis como Comissário Pontifício.
De volta a Bogotá
Apesar das deficiências do texto de Verboonen que arquiva a investigação, o documento se converte agora em uma bomba-relógio nas mãos de Roma. Leão XIV deve decidir se ignora os achados de Verboonen ou se, baseando-se neles, decide o futuro dos Arautos.
Lamentavelmente, quem prestar atenção ao futuro da Visita Apostólica aos Arautos deve reconhecer também como estes foram, em mais de um sentido, os personagens principais na vigília da Praça de Bolívar em Bogotá.
Não que em Bogotá se careça de experiência sobre como manejar os contatos entre religião e política. Ao contrário da separação “rígida” entre religião e política que se vive no México, na Colômbia existe uma tradição arraigada de sacerdotes, bispos e cardeais que compartilham o palanque com o presidente e outras autoridades.
Ao examinar a cerimônia na Praça de Bolívar, é inevitável perguntar-se por que, em vez do coro da Catedral Metropolitana da Imaculada Conceição de Bogotá, foi um coro dos Arautos o responsável pela parte musical da vigília.

Mais significativo ainda: por que foram seis membros dos Arautos — metade monges, metade soldados — que ajudaram De la Espriella a coroar não uma escultura da Imaculada Conceição, nem sequer uma de Nossa Senhora de Chiquinquirá — a invocação católica oficial de Maria, escolhida por Roma como padroeira da Colômbia —, mas sim Nossa Senhora de Fátima?
Qualquer um que tenha passado tempo suficiente como católico ou como observador do que transcorre na cultura católica sabe que Nossa Senhora de Fátima, ao contrário de outras invocações da Virgem Maria, é a padroeira não oficial da intransigência religiosa, do pensamento apocalíptico, da prática religiosa rígida e das posturas conservadoras radicais. Nesse sentido, é difícil imaginar a tentativa de De la Espriella de utilizar a vigília para unir a Colômbia após os terremotos quando optou por empregar um símbolo religioso tão polarizador como Nossa Senhora de Fátima em vez de Nossa Senhora de Chiquinquirá.
O fato de que a cerimônia de coroação de Nossa Senhora de Fátima não tenha sido realizada nem assistida pelo decano da Catedral de Bogotá, nem por algum outro sacerdote diocesano da Colômbia, ou pelo arcebispo de Bogotá é, em si mesmo, uma demonstração da influência que os Arautos ainda são capazes de exercer em momentos em que Roma, cedo ou tarde, deverá resolver o futuro desta organização similar a uma ordem.
Mais ainda: foi a decisão de De la Espriella de exibir a preferência de seu governo pelos Arautos uma mensagem para Roma, uma forma de fazer saber a Leão XIV que o governo colombiano está disposto a respaldar os Arautos se em Roma existisse a intenção de proceder à sua supressão?
Isso ganha maior relevância dado que os Arautos têm agora o improvável mérito de ser a única organização similar a uma ordem na América Latina com um registro documentado de abusos sistêmicos, reconhecidos como tais não por alguma rede de sobreviventes de abusos no Brasil ou por veículos independentes no Brasil ou na Colômbia, mas pela promotora de Justiça do estado de São Paulo, Catharina Verboonen.
E para ser claros: não que Verboonen tenha feito tudo o que estava ao seu alcance neste assunto. Ainda que o seu seja provavelmente o primeiro documento oficial brasileiro disposto a reconhecer a magnitude do abuso nas instalações e operações dos Arautos, sua decisão de arquivar a investigação de três ou cinco anos — segundo como se meça — anula a possibilidade de achar vias alternativas para oferecer justiça às 40 vítimas de abusos, sexuais ou de outra índole, que estiveram dispostas a confiar no processo e apresentaram seu depoimento sobre o ocorrido com elas e, indiretamente, com suas famílias e pessoas próximas.
Não há menção alguma, por citar um entre vários exemplos possíveis, à jurisprudência emanada da Corte Interamericana de Direitos Humanos, a qual rejeitou categoricamente a figura da prescrição como argumento para impedir o acesso à justiça.
Esta é a primeira de várias edições que examinarão os detalhes do sucedido ali e os demais elementos que devem ser levados em conta sobre como ocorre o abuso nos contextos católicos da América Latina e por que é tão difícil para as vítimas acederem à justiça.
O que deve ficar claro, em todo caso, é que a resolução de Verboonen não é simplesmente um processo penal brasileiro enviado ao arquivo morto. É uma janela para um ecossistema religioso e político transnacional que se estende de São Paulo a Roma, do Canadá à Colômbia, capaz de influenciar tanto a vida religiosa quanto a pública, apesar dos abusos documentados em suas próprias fileiras.

* * *
Um resumo deste texto está disponível em áudio após este parágrafo.
Nota de produção: O texto do resumo, assim como o principal, foi escrito e editado apenas pelo autor. A gravação do áudio foi feita com uma ferramenta de texto para voz (Microsoft Word via Web). A IA foi utilizada apenas para gerar a voz, e não para a criação do conteúdo.